Fernando Lemos [Lisboa, Portugal, 1926—São Paulo, Brasil, 2019] foi artista plástico, fotógrafo, desenhista, pintor, designer gráfico e industrial e poeta. Integrante da terceira geração do modernismo português, construiu uma trajetória marcada pelo trânsito entre diferentes linguagens e pela investigação das relações entre imagem, palavra, gesto e matéria. Filho de uma rendeira e de um marceneiro-antiquário, esteve desde cedo próximo do trabalho manual.
Entre 1938 e 1943, estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e, posteriormente, frequentou o curso de pintura da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. Paralelamente, trabalhou como desenhista em litografias industriais, experiência que se desdobraria em sua atuação nas artes gráficas e no design.
No final da década de 1940, aproximou-se do surrealismo português, em um contexto marcado pela censura e pela repressão do regime salazarista. Entre 1949 e 1952, dedicou-se intensamente à fotografia, desenvolvendo uma produção experimental baseada na sobreposição e dupla exposição de negativos, na manipulação, solarização e inversão de imagens.
A câmera tornou-se, para Lemos, um instrumento de construção e transformação da realidade. Corpos, rostos, objetos, interiores e sombras eram fragmentados, sobrepostos e deslocados, produzindo imagens entre o reconhecível e o abstrato. Seus retratos de artistas e intelectuais de sua geração — entre eles Mário Cesariny, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Helena Vieira da Silva — também ultrapassam o registro documental, convertendo o retratado em matéria visual. Essa produção, realizada em poucos anos, seria redescoberta décadas mais tarde, especialmente a partir da exposição À Sombra da Luz, realizada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1994.
Em 1953, Fernando Lemos deixou Portugal e estabeleceu-se no Brasil, onde viveu até o fim da vida. Suas fotografias foram apresentadas naquele mesmo ano nos Museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas seria sobretudo o desenho que marcaria sua inserção na cena artística brasileira.
Em 1957, recebeu o prêmio de Melhor Desenhista Nacional na IV Bienal de São Paulo. A partir de então, sua produção caminhou progressivamente em direção à abstração, articulando linhas, signos, campos de cor e formas geométricas e orgânicas. A distância de Portugal, contudo, não representou uma ruptura: a memória, o exílio e a relação entre ausência e pertencimento permaneceram presentes em sua produção visual e poética.
No Brasil, sua atuação se expandiu para a pintura, gravura, ilustração, tapeçaria e design gráfico e industrial. Participou ativamente da modernização da cultura visual brasileira, trabalhando em livros, revistas, publicidade, identidades visuais, exposições e projetos institucionais. Em 1962, fundou com o escritor Sidónio Muralha a Editora Giroflé, voltada à literatura infantil, para a qual desenvolveu o projeto gráfico. Também foi professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo [FAU-USP] e atuou em iniciativas relacionadas ao design, à documentação e à preservação da produção artística.
Em sua trajetória, arte e design não constituíram campos separados, e sim, nas diferentes possibilidades de investigação da forma, do signo, da palavra e do espaço. Em 1963, recebeu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar caligrafia no Japão. A experiência aprofundou seu interesse pelo gesto, pela escrita, pelo vazio e pela relação entre espaço e movimento, elementos que passaram a ocupar lugar central em seus desenhos e pinturas.
A linha assumiria simultaneamente o caráter de signo, escrita e forma, aproximando a linguagem visual da caligrafia e da abstração. O contato com a cultura japonesa significou a incorporação de uma outra compreensão da relação entre corpo, gesto e imagem, reforçando o desenho como campo de pensamento.
A poesia acompanhou toda a trajetória de Lemos e manteve uma relação estreita com sua produção visual. Publicou Teclado Universal em 1953, seguido por Cá & Lá e outras coletâneas. Em sua obra, palavra e imagem frequentemente se confundem: o desenho pode assumir a estrutura de uma escrita, enquanto a palavra é explorada também por sua dimensão gráfica, sonora e visual.
Essa relação atravessa igualmente sua pintura, na qual signos parecem conservar vestígios de uma linguagem que não precisa ser decifrada. Nas últimas décadas de sua produção, retomou ainda a fotografia em trabalhos como Ex-fotos, série iniciada em 2014 a partir da intervenção sobre fotografias amadoras descartadas, retomando procedimentos de ocultamento, sobreposição e revelação presentes em sua produção surrealista.
A multiplicidade de sua produção é fundamental para compreender a singularidade de Fernando Lemos. Embora sua fotografia surrealista realizada em Portugal tenha adquirido especial reconhecimento, sua trajetória se constitui igualmente pelo desenho, pela pintura, pela poesia, pelo design e pela experiência do exílio.
Em sua obra, essas linguagens não se sucedem, mas se contaminam: a sobreposição experimentada na fotografia aparece na pintura; o gesto fotográfico encontra continuidade no desenho e na caligrafia; a palavra transforma-se em imagem; e o trabalho gráfico aproxima-se da construção artística. Reconhecido em Portugal e no Brasil, recebeu o Prêmio Nacional de Fotografia em 2001 e, em 2018, o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Sua obra ocupa um lugar singular entre a arte portuguesa e brasileira do século XX, atravessando diferentes meios e gerações sem se fixar em uma única linguagem. Entre fotografia e desenho, palavra e imagem, gesto e matéria, sua produção é marcada pela experimentação contínua e pela liberdade de construir novas formas de ver.


Luz teimosa
1949–1952
Fotografia analógica, ampliação sobre papel
47 x 47 cm


Sophia de Mello Breyner no castelo desde o cerco de Lisboa
1949–1952
Fotografia analógica, ampliação sobre papel


Luz do olhar
1949–1952
[Coleção Fundação Cupertino de Miranda]


Vespeira Figurativo
1949
Fotografia analógica em preto e branco, prova de gelatina e prata sobre papel
30 x 35 cm


Eu, poeta
1949–1952
Fotografia analógica em preto e branco, gelatina e sais de prata sobre papel
70 x 70 cm


Intimidade dos armazéns do Chiado
1949–1952
Fotografia analógica em preto e branco, prova de gelatina e prata sobre papel
40,7 x 40,7 cm


Concerto dos Manequins
1949
Fotografia analógica em papel Agfa


Reunião de Diretoria
1949
Fotografia analógica em preto e branco, prova de gelatina e prata sobre papel


A dança dos animais
1949[Coleção Arte Contemporânea / Acervo IMS]


A mão e a faca: acordo secreto
1949–1952
Fotografia analógica em gelatina de prata sobre papel, preto e branco
[Acervo IMS]


Mão acesa
1949–1952
[Acervo IMS]


Nº 6
1971
Óleo sobre tela
120 x 120 cm


Sem título
1973
Óleo sobre tela
80 x 60 cm


Sem título da série A Televisão da Bicharada
1999
Tinta e aquarela sobre papel
27,80 x 50,30 cm
[Coleção Beatrix Overmeer]

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